Armando Mendoza Yañez - 5 de abril de 2026
Este ensaio examina como falhas estruturais — cognitivas, institucionais e políticas — impedem o Brasil de transformar diagnósticos abundantes em soluções concretas. A partir de autores como Luis F. Aguilar, Rafael Bañón, Antonio Damasio, Tali Sharot, Hugo Mercier e Dan Sperber, o texto discute a incapacidade das elites brasileiras de formular políticas públicas eficazes, a estagnação latino‑americana e o contraste com experiências bem‑sucedidas do Sudeste Asiático e dos países nórdicos. O artigo propõe um chamado à responsabilidade cognitiva como condição para o desenvolvimento nacional.
A falta de monitoramento de políticas públicas e, principalmente, a insuficiência na avaliação de impactos constituem um dos principais entraves para transformar diagnósticos em resultados concretos. A avaliação de impactos é um instrumento essencial para compreender em que medida uma intervenção estatal realmente transforma a realidade social. Ela vai além do simples acompanhamento da execução — que apenas verifica se metas foram cumpridas — para permitir correções de rumo. É a avaliação de impactos que revela se as mudanças observadas são efetivamente atribuíveis à política implementada e se sua relevância contribui para o desenvolvimento humano, econômico, social e ambiental, no cerne dos desafios que uma sociedade moderna deve enfrentar.
Autores como Luis F. Aguilar — em La Hechura de las Políticas e La Política como Respuesta al Desencantamiento del Mundo — e Rafael Bañón Martínez — em La Nueva Gestión Pública e La Modernización de la Política y la Innovación Participativa — insistem no mesmo ponto: apenas políticas capazes de produzir efeitos concretos e socialmente significativos podem ser consideradas bem-sucedidas. Por isso, a avaliação de impacto integra o próprio ciclo das políticas públicas, retroalimentando o processo decisório, aprimorando o desenho institucional e fortalecendo a legitimidade democrática ao permitir que o Estado aprenda com seus acertos e erros.
Nesse contexto, indicadores como o PIB per capita podem ser utilizados para aferir a efetividade de um conjunto de políticas, desde que correlacionados a outras métricas sociais e econômicas — qualidade de vida, qualidade do ensino básico, sustentabilidade ambiental, funcionamento das cidades e bem-estar dos mais pobres — de modo a captar de forma mais completa o impacto real das ações governamentais sobre o desenvolvimento humano. É isso que está implícito em muitos dos estudos comparados entre economias da América Latina, do Sudeste Asiático ou dos países nórdicos — regiões que, em muitos casos, apresentavam rendimentos inferiores aos latino-americanos, mas que posteriormente nos ultrapassaram de forma consistente.
Este artigo, portanto, busca oferecer uma reflexão que permita avaliar melhor nossos próprios achismos — sejam eles de juristas, jornalistas, políticos, influenciadores, intelectuais ou do cidadão comum.
Há uma assimetria evidente entre a obtenção de impactos reais — que exige técnica, métodos e procedimentos consagrados pelas melhores práticas das Ciências Políticas e da Administração — e o viés ideológico que frequentemente domina o debate público brasileiro. Soma-se a isso um viés jurídico que, muitas vezes, ignora a viabilidade técnica, econômica, financeira e a oportunidade de uma política pública, intervindo de forma que, em última instância, poderia ser tachada como caprichosa — um capricho injustificável sob qualquer ótica das Ciências Políticas e da Administração. Esse padrão, infelizmente, parece caracterizar boa parte da experiência latino-americana, em contraste com o que ocorreu no Sudeste Asiático e nos países nórdicos no pós‑Segunda Guerra Mundial.
A resposta para a nossa paralisia pode residir não na complexidade dos problemas em si, mas na forma como os abordamos. O debate público brasileiro é frequentemente sequestrado por falácias lógicas que distorcem a realidade e impedem a construção de consensos mínimos. Duas dessas falácias são particularmente perniciosas: o falso dilema e o post hoc ergo propter hoc (“depois disso, logo por causa disso” — expressão que, no uso cotidiano, revela um tipo de estupidez intelectual que repetimos para justificar nossos políticos e condenar seus opositores).
O falso dilema nos aprisiona em escolhas binárias e simplistas, onde a complexidade das questões é reduzida a “tudo ou nada”, “certo ou errado”, “nós contra eles”. A discussão sobre a reforma da previdência, por exemplo, é frequentemente enquadrada como “salvar o país” ou “condená-lo à bancarrota”, ignorando soluções reais e matizes possíveis. Já o post hoc ergo propter hoc leva à conclusão automática de que, se um evento ocorreu após outro, deve necessariamente ter sido causado por ele — como atribuir a um governo específico a responsabilidade por um indicador econômico apenas porque ele piorou ou melhorou durante seu mandato, ignorando fatores estruturais, históricos ou externos.
Essas distorções cognitivas empobrecem o debate público, impedem a construção de consensos e reforçam o labirinto cognitivo que aprisiona o país e suas elites intelectuais, políticas e administrativas.
As elites brasileiras, fragmentadas por polarização cognitiva e disputas ideológicas, contrastam fortemente com as elites dos Tigres Asiáticos, que se estruturaram de forma mais meritocrática e orientada ao desenvolvimento. Enquanto no Brasil predominou uma elite marcada por clientelismo, baixa coordenação e disputas internas — como analisa Schneider (1991) — países como Coreia do Sul e Taiwan formaram burocracias técnicas autônomas, compostas por quadros altamente qualificados (muitos formados em MIT, Harvard e outras instituições de ponta), capazes de coordenar políticas industriais de longo prazo.
Estudos como Brites (2019), Helal & Rocha (2013) e Schneider (1991) reforçam que a coordenação estatal asiática — baseada em burocracias técnicas e elites coesas — contrasta com a fragmentação brasileira, dificultando a construção de políticas de desenvolvimento consistentes.
Segundo resultados preliminares do Censo Demográfico 2022, divulgados pelo IBGE, 35,3% dos trabalhadores brasileiros recebem até 1 salário mínimo, e 68% recebem até 2 salários mínimos.
Segundo o Data Favela 2023, as favelas brasileiras abrigam 17,9 milhões de pessoas, distribuídas em mais de 13 mil comunidades, movimentando mais de R$ 200 bilhões por ano. Apesar dessa força econômica, a renda permanece extremamente baixa e desigual, como mostram estudos da UFF e do próprio Data Favela, reforçando a tese de que a América Latina vive um ciclo de estagnação ou involução social.
Estudos anteriores que realizei mostravam que o que mais cresce na América Latina — e no Brasil em particular — são as favelas. Para mim, a favelização do Brasil é a maior prova de ineficiência, ineficácia e falta de efetividade do nosso sistema político e partidário, bem como da pobreza da gestão da coisa pública e do assalto do Estado por grupos de interesse. É esse processo que este artigo pretende evidenciar.
Nosso baixo rendimento escolar em ciências, matemática e leitura revela um fenômeno preocupante: parte significativa das elites brasileiras sofre de um tipo de analfabetismo funcional que se manifesta em seus discursos, opiniões e intervenções públicas — seja nas redes sociais, na imprensa ou em declarações de intelectuais e formadores de opinião. Esse padrão não é mera impressão; ele é corroborado pela ciência contemporânea, que mostra como déficits de compreensão, raciocínio lógico e interpretação de evidências podem coexistir com altos níveis de escolaridade formal. O resultado é uma elite que, apesar de titulada, reproduz vieses intelectuais profundos, incapaz de formular diagnósticos precisos ou propor soluções consistentes para os desafios nacionais.
A neurociência oferece uma perspectiva crucial para entender por que, mesmo entre as elites intelectuais e políticas, a razão nem sempre prevalece. Antonio Damasio demonstra que o cérebro humano não é uma máquina puramente lógica; emoções e vieses cognitivos moldam profundamente a tomada de decisão. Tali Sharot, ao estudar o viés de confirmação, mostra que tendemos a buscar e interpretar informações que reforçam nossas crenças prévias, ignorando evidências contrárias.
No contexto das elites, isso significa que indivíduos altamente educados podem, inconscientemente, priorizar a manutenção de sua identidade de grupo e de suas narrativas, em detrimento da busca pela verdade objetiva. Hugo Mercier e Dan Sperber, em sua teoria argumentativa da razão, vão além: sugerem que a principal função da razão é social — argumentar, persuadir, defender posições — e não necessariamente descobrir a verdade. Assim, a razão se torna instrumento de validação tribal, não de construção coletiva.
Esse funcionamento cognitivo ajuda a explicar por que o debate público brasileiro se transforma em um labirinto cognitivo: a busca pela verdade cede lugar à defesa de identidades e narrativas de grupo.
O tribalismo intelectual, alimentado por falácias lógicas e vieses cognitivos, tem um custo altíssimo para o desenvolvimento do Brasil. Ele impede a formulação e a execução de políticas públicas de longo prazo, essenciais para áreas como educação, saneamento básico e apoio às Micro e Pequenas Empresas (MPEs).
Na educação, cada mudança de governo redefine prioridades e metodologias, muitas vezes ignorando avanços anteriores. O que deveria ser política de Estado torna-se política de governo, sujeita a humores ideológicos. Sem avaliação de impacto, não há aprendizado institucional — apenas reinvenção constante da roda.
O saneamento básico, pilar da saúde pública, sofre com interrupções e descontinuidades que desperdiçam recursos e mantêm milhões de brasileiros em condições insalubres. A falta de consenso mínimo sobre a continuidade desses projetos reflete a incapacidade das elites de transcender disputas de curto prazo.
Para as MPEs, a instabilidade regulatória — tributação, crédito, burocracia — cria um ambiente de incerteza crônica. Sem planejamento estratégico nacional consistente, essas empresas, que são a espinha dorsal da economia, não conseguem investir, crescer ou gerar empregos de forma sustentável.
Diante desse cenário, a responsabilidade das elites formadoras de opinião transcende a mera emissão de juízos. Torna-se um dever ético e uma estratégia de sobrevivência nacional. É imperativo desenvolver um “autocontrole intelectual”: capacidade de autocrítica, reconhecimento dos próprios vieses e vigilância contra falácias que distorcem o debate.
Isso implica um esforço deliberado para:
Questionar as próprias certezas, buscando informações que desafiem visões de mundo.
Valorizar a complexidade, resistindo a dilemas binários.
Priorizar evidências, baseando argumentos em dados verificáveis.
Promover diálogo construtivo, debatendo para aprender, não para vencer.
O futuro do Brasil depende da capacidade de suas elites de transcender o labirinto cognitivo que as aprisiona. Somente com rigor intelectual, humildade cognitiva e compromisso genuíno com soluções será possível transformar a abundância de diagnósticos em desenvolvimento real. É hora de a razão reassumir seu papel central na construção do nosso destino.
AGUILAR VILLANUEVA, L. F. (Ed.). La Hechura de las Políticas.
AGUILAR VILLANUEVA, L. F.; PEÓN, C.; PINTO, J. La Política como Respuesta al Desencantamiento del Mundo. Universidad de Buenos Aires.
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